quarta-feira, 18 de abril de 2018

A poucas horas do início da FIV 2

A pílula cumpriu a sua função, hoje a hemorragia de privação chegou viva. Consegui contactar o hospital e amanhã, às 9h30, eu e o meu marido estaremos no piso 3 a aguardar o início da última temporada desta série. Deveremos fazer repetição das análises da praxe, vamos assinar papéis e ter formação em injetáveis com a enfermeira. Vou falar acerca da criopreservação dos possíveis embriões (agora um por palheta) e do meu interesse em, na próxima transferência, usar apenas um embrião. Se, devido à idade, até poderia até reunir condições de transferir mesmo 3 embriões, pela minha desconfiança de rejeição de células estranhas, vou jogar pelo seguro e experimentar desta forma. Nunca tentei apenas um! Se calhar vão achar disparatado mas já que o empirismo tem mandado, por que não fazê-lo, nem que seja só uma vez? Experimento e logo se vê. Três de uma vez não faria de certeza, mesmo que mo aconselhassem.

Os meus ovócitos estão mais velhos em relação à última FIV, devem estar a ficar senis, assim como eu. Estou a perder a paciência para continuar em permanentes experiências que só me têm feito sofrer, adiar projetos, abdicar de oportunidades e manter a vida em suspenso. O limite está muito bem definido. Quando terminarem todas as hipóteses que este tratamento me possa trazer, será de facto o fim. Esta clarividência no estabelecimento de um final está a deixar-me voltar a tomar um pouco as rédeas da minha vida, que era algo que não sentia há muito tempo. Sim, é verdade, a forma como abordo isto transparece que não estou nada convencida que seja nesta FIV que o assunto da infertilidade fica resolvido. Não consigo pensar de outra forma quando tantas vezes se lê ou ouve que basta um embrião e dez para mim não resultaram.

segunda-feira, 26 de março de 2018

Nada no útero

Desloquei-me ao hospital para perceber o que se passava de errado. A técnica administrativa, ao ver-me, ficou toda contente a pensar que estava a menstruar novamente. Disse-lhe que havia algo anormal, então foi logo falar com as médicas. Chamaram-me imediatamente para fazer ecografia apesar da sala de espera estar a abarrotar. Tinha duas médicas a observar o ecrã para verificarem se ainda havia alguma coisa no útero. Ficaram mais tranquilas por estar limpo. Viram depois os ovários e esses, exibiram-se com a treta do costume.

Aparentemente a libertação de coágulos e perdas clarinhas de sangue que tenho há semanas dever-se-ão a um desequilíbrio hormonal. A cavidade uterina está vazia, não são visíveis coágulos. No sábado ainda saiu um com cerca de 5cm de comprimento por 1cm de largura e ontem outro de menores dimensões. Para tentar resolver este distúrbio e reunir condições para iniciar a próxima FIV, vou tomar uma embalagem de Denille (pílula). Ao terceiro dia de sangue vivo vou ao hospital, faço ecografia e começo as injeções.

Perguntei à Diretora se o relatório de anatomia patológica já estava pronto e ela que disse que não, o que não é normal, dado já terem passado mais de 3 meses. Ela acha que o conteúdo da aspiração não foi entregue ao laboratório. No dia em que fui ao bloco o médico garantiu a mim e ao meu marido aliás, disse para ficarmos tranquilos, que os tecidos iam para análise citogenética. Falei também à médica o que fora dito na urgência relativamente a problemas genéticos nos embriões. Recordo que quando me perguntaram se tínhamos feito análise aos cariótipos e eu referi estarem normais, o médico afirmou ser impossível termos embriões com anomalias genéticas. Ela respondeu, como eu já sabia, que podem haver anomalias apesar dos cariótipos estarem bem.

Estou saturada de perdas de sangue, de esperar, de nunca mais fazer algo diferente, apesar de ter consciência que daqui a um mês vou estar a meio do processo de estimulação e começar a sentir-me como uma panela de pipocas. Parece que o ano já vai a meio. Este arrastar de tempo é fruto da gravidez mal resolvida, da inércia do laboratório ou da minha cabeça que quer pôr fim às incertezas.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Questionário

Tenho vindo a refletir acerca da pertinência deste espacinho virtual. Há algumas ideias a saltitar na minha mente e lembrei-me que há uma ferramenta que poderá ajudar um pouco a clarificar o que fazer em intervenções futuras. Digamos que estou a tratar do plano B do blogue, porque não o quero deixar a ganhar pó quando terminar a luta.

Quando procuramos alguma informação na internet aterramos em páginas com as quais temos afinidade, outras estão completamente fora do nosso objeto de pesquisa. Este blogue pode ser útil para algumas pessoas, assim como completamente irrelevante para quem, por engano ou não, veio cá parar. Nem todos os que lêem conteúdos nas redes participam nas páginas em que tal é permitido, nem têm qualquer obrigação de o fazer. Por exemplo, é totalmente legítimo que visitem esta página e não digam nada nos comentários. Cada um é livre de escolher como quer relacionar-se com o blogue.

Penso muitas vezes que agora que estou a chegar à quarta década de vida, fiquei "tagarelas" no que diz respeito à escrita. Enquanto estudante, sintetizava todas as ideias em poucas palavras, de uma forma clara. Agora sinto necessidade de deixar as palavras fluírem. No trato com as pessoas continuo reservada, sempre fui mais ouvinte que conselheira.

Voltando ao assunto do questionário que, assim como no blogue só participará quem quer, o alcance que pretendo atingir com esse instrumento é simples. Eu, e acredito que a maior parte das pessoas que procura este tipo de partilha tão pessoal, procuramos conforto para uma parte da vida que nos é difícil. Queremos acabar com aquela questão persistente "porquê eu, porquê a nós?" Ansiamos por soluções, milagres que resolvam de uma vez por todas o nosso sofrimento. É certo que não é com a desgraça alheia que encontramos o sentido de tudo e o alívio que almejamos, mas a procura de afinidade com casos semelhantes ao nosso renova a esperança.

As contas Google têm uma série de aplicativos que merecem ser explorados. Os formulários são uma das ferramentas disponibilizadas. Em primeiro lugar tentei perceber em traços gerais como usar as funcionalidades disponibilizadas. Depois, de acordo com o seu potencial, fiz um auto brainstorm dos conteúdos que iria incluir. Verifiquei que há muitas variáveis a considerar não tanto do ponto de vista técnico da aplicação, mas da infinidade de assuntos passíveis de exploração. Findas as mais de 20 secções que coloquei no questionário, vejo que está redutor, muita coisa poderia ser ainda incluída. Será relevante o que lá não consta? Provavelmente sim. Como há tantos cenários hipotéticos e específicos que podem acontecer, procurei algo mais generalista que pudesse abranger pessoas em diferentes fases do processo. Consoante a interação que possa surgir, logo vejo se o questionário faz algum sentido. De uma coisa tenho a certeza, não perco nada em colocá-lo online.

Fiz vários ensaios para ver se todas as interligações estavam bem executadas e submeti uma versão preenchida com a minha perspetiva para ver como era feito o tratamento dos dados. Embora não esteja totalmente satisfeita com o resultado, vou arriscar.

No endereço que se segue encontra-se o dito cujo

https://goo.gl/forms/FSkwPcWzJV1ZjvzO2

Aceito sugestões, isto foi feito nuns minutos livres que tive.

Outro facto que me estou a aperceber é que este processo de escrita está a desabrochar-me.

terça-feira, 20 de março de 2018

Ajuda, precisa-se!

Como referi anteriormente, menstruei sem qualquer tipo de coadjuvante químico. Tão estranho como o fenómeno é o processo em si.

Passo a explicar.

O fluxo não foi muito abundante mas dava para concluir claramente que era menstruação. Seis ou sete dias depois era residual, levando-me a pensar que estaria a terminar. Julgo que no sábado à noite, sem que esperasse, o papel higiénico ficou todo vermelho, saíram dois ou três pequenos coágulos. Pensei que a menstruação fosse voltar, mas não. Nos dias que se seguiram veio novamente o corrimento claro a variar entre o rosa e o castanho, que indiciava que estivesse no fim. Ontem praticamente não houve nada e hoje também não, até agora. Estou outra vez com o corrimento rosa.

Atendendo que o hipotético ciclo anterior foi de 22 dias, nesta fase dar-se-ia a ovulação. O problema é que as perdas não pararam desde o dia 8 de março.

Pergunto às meninas experientes em menstruações espontâneas se isto é normal. Procurei informação mas não encontrei nada relacionado.

terça-feira, 13 de março de 2018

Planos minimamente definidos

Ontem terminaram as 3 semanas dadas pelo laboratório de anatomia patológica para finalmente saber se havia alguma anomalia no embrião. Consegui contactar o hospital (é muitas vezes uma missão difícil) em que dei conta da efeméride. Avisei também que milagrosamente menstruei all by myself 23 anos depois. Ficou de ser dado o recado à Dra M. para ela ver se no sistema já havia novidades e entrariam em contacto comigo para dizer algo. Passaram mais de 24 horas e continuava sem saber nada.

Esta manhã, depois de muita insistência a diferentes horas, a minha chamada foi atendida. O meu processo estava a ser analisado pela Diretora e por uma colega. Por mais estranho que pareça o resultado ainda não estava pronto e estavam a discutir se se deveria avançar com a FIV mesmo desconhecendo o relatório de anatomia patológica. A administrativa perguntou se eu tinha alguma contraindicação para tomar a pílula. Respondi que não, no entanto nunca me senti bem quando a usava. Questionei se o Provera servia, uma vez que nunca tive problemas com ele. Perguntou também quando veio a menstruação e se ainda tinha fluxo. Dei a indicação que foi no dia 9 e hoje já não tinha praticamente nada. Aguardei mais um pouco para que o recado fosse transmitido e recebesse o feedback. Como a menstruação está a terminar seria muito arriscado iniciar agora a estimulação, então deverei aguardar a próxima menstruação. A administrativa alertou que normalmente não menstruo espontaneamente e, pasme-se, a médica lembrou-se de quem se tratava. O que ficou estipulado foi aguardar até dia 15 de abril para ver se a menstruação se manifesta. Caso não aconteça nada tomo Provera e ao terceiro dia do ciclo começa a saga dos injetáveis. Pode ser que até começar a estimulação o laboratório diga alguma coisa. Quinta-feira já vão ter terminado 12 semanas desde a aspiração. Terá passado quase metade do tempo da gravidez, se tudo tivesse corrido bem e ainda estou a tentar saber se havia algo de errado com o embrião.

Há possibilidade de ainda este mês começar o protocolo da FIV. Se os ovários estiverem cooperantes a punção será em abril, mais provavelmente maio. A transferência que poderá acontecer, não faço a mínima ideia quando irá ser... E assim está a passar o ano, a ocorrer ainda em função de 2017. Acho que não irá suceder nada de muito relevante nos 38 anos. Será uma espécie de "folga" em que continuo com o quotidiano condicionado por causa desta porcaria. Uma área da minha vida está a ser fortemente afetada há anos para poder ter disponibilidade para me dedicar aos tratamentos e não vou conseguir resolver esse capítulo tão cedo.

Por um lado sinto um certo alívio por estar na reta final desta batalha. Preciso de dar uma volta à minha existência. Parece que nada do que faço atualmente tem sentido, porque há sempre uma vírgula chamada infertilidade, que impõe restrições a tudo o que executo. Estou completamente dominada por ela e isso não é viver. No fundo estou subjugada à maldita.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Não me conheço mais!

Durante mais de 20 anos habituei-me à realidade de necessitar de medicação para menstruar. Questionei há tempos no hospital como iria saber quando me encontrava na menopausa. Passei por uma série de tratamentos em que introduzi no meu organismo quantidades absurdas de hormonas. Passei por abortos e uma aspiração. No mês passado, mais precisamente no dia de Carnaval, apercebi-me que tinha um corrimento ligeiramente rosado, por vezes acastanhado, clarinho, que perdurou por 4 dias. De vez em quando uma dorzinha ligeira afetava-me o fundo das costas. Na cabeça gerou-se um turbilhão de questões acerca do que aquilo poderia significar. Menstruação? Ovulação? Ainda perdas de restos de tecido embrionário que não foram removidos na aspiração? Menopausa a aproximar-se? Um distúrbio hormonal desconhecido? O que quer que fosse passou até voltar a manifestar-se ontem.

No dia da Mulher, acordei outra vez com o corrimento. Consultei imediatamente um calendário em que verifiquei que passaram 22 dias desde que me apercebi desse fenómeno estranho em fevereiro. A primeira palavra que me veio à cabeça foi "ciclo". Mas novamente surgiu a dúvida se aquele sinal me indicava ovulação ou menstruação. Hoje, numa ida à casa de banho, vi o que era: MENSTRUAÇÃO! Senti um soco emocional em relação ao que me está a acontecer. Quem diria que ia passar por isto aos 38 anos? A "adolescente" voltou não sei por quanto tempo. O primeiro impulso foi telefonar à minha mãe. Do outro lado ouvi "Assim, sem mais nem menos, não tomaste o Provera?". Ela contou que só depois dos 40 anos é que começou a ser regular. Antes disso estava 2 ou 3 meses sem menstruar. Os ciclos começaram mais tarde a ser completamente descontrolados por causa de miomas e pólipos que apareceram. Acabou por fazer uma histerectomia total aos 51 anos, dois anos depois do meu pai falecer.

Se realmente isto é um ciclo menstrual, 22 dias é pouco tempo. Não sinto dores, ao contrário do que aconteceu em 1994, em que mal me aguentava em pé. Segunda-feira terminam as tais 3 semanas que o laboratório de anatomia patológica disse faltarem para ficar pronto o resultado da análise aos restos embrionários. Iniciarei depois o protocolo da FIV, em que vou saber como andam os meus ovários.

Este facto inédito trouxe uma mini-esperança de que se a FIV não resultar poderei talvez no futuro engravidar espontaneamente se continuar a ter ciclos naturais e estes não forem anovulatórios. Mas engravidar não basta, é preciso conseguir mantê-la. Estou confusa com isto. Nunca esperei que fosse viver algo assim, principalmente nesta idade. Este fim de semana eu e o meu marido vamos fazer uma escapadinha, há muito tempo que não acontecia. Vai ser uma micro lua-de-mel, com o país em alerta meteorológico, em que estarei com o período (não programado).

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Maldita sejas!

Odeio-te desde que me falaram de ti pela primeira vez. Nunca quis que fizesses parte de mim, no entanto tens-te infiltrado na minha mais profunda existência. Interferes nos dias, nas noites, nos meus sonhos. Tens o dom do escárnio e da usurpação dos planos que idealizei. Fazes-me sentir esdrúxula no pior sentido possível. Troças de mim com perversidade até me reduzires à coisa mais reles que existe no planeta.
Usas um cutelo para revolver, até ao meu âmago, a ferida que abriste ainda quando era uma jovem com o mundo pela frente. Maldita sejas, coisa doentia! Desprezo-te veementemente, infertilidade!

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Continua a espera

Confirma-se definitivamente que a FIV 2 não vai ser este mês, talvez seja no próximo. Por inacreditável que pareça a análise ainda não está concluída. Uma das médicas ligou para o laboratório no sentido de os pressionar um pouco dizendo que eu aguardava a FIV para este mês, como resposta disseram ainda não é possível. Quando se trata de analisar restos ovulares ou placentários o processo demora mais de um mês. O laboratório deu a indicação de esperar mais 3 semanas...

Na quinta-feira vai fazer 9 semanas que fui ao bloco e continuo a achar que o resultado vai ser inconclusivo. Outra coisa de que já tenho a certeza é que em 2018 não serei mãe. Vou completar 7 anos de colo vazio.

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Pseudoatualização

O mote é aguardar. O telefonema que atendi há uns tempos em que iria receber instruções para a preparação da FIV deixou-me a duvidar de uma parte do que foi dito. Segundo a enfermeira, a Drª L. disse para aguardar uma carta com a marcação de uma consulta relacionada com anatomia patológica e aí contactar a Medicina da Reprodução. A questão é que nunca ouvi falar de consultas desse tipo. Na sexta-feira passada liguei para o piso 3 (tinham passado 5 semanas desde a aspiração) e relatei o teor do recado que me transmitiram à técnica administrativa. Ela disse logo "Que disparate! Não há consulta nenhuma, nem enviam nada para casa. Vou pedir à Drª L. para verificar se o relatório já está na base de dados e ainda esta manhã digo-lhe alguma coisa". De todas as pessoas que trabalham naquele piso, se tivesse de erguer uma estátua a alguém, a primeira pessoa seria a querida S. que tão maravilhosamente acolhe os casais. Falar com ela é como receber um gigante abraço. Representa com todas as letras a palavra humanização, no setor da saúde. Tem uma paciência desmedida, um sentido prático verdadeiramente eficiente e uma empatia misturada com aquele calor humano que tantas vezes precisamos quando estamos naquele espaço. É muito mais que uma executora de funções na área administrativa, é A NOSSA S...aninha!

Umas horas depois dessa chamada, recebi o feedback prometido. Há atrasos no envio de resultados, um pouco por influência do Natal. Iria demorar ainda umas duas semanas a estar disponível. Ficou no meu processo a indicação de, no dia 9 de fevereiro, verificar no computador se o relatório da análise citogenética se encontra disponível, para dar seguimento à nossa faina.

É caricato ser dia 9 de fevereiro. Vai fazer dois anos nessa data que a minha avó faleceu. No dia seguinte, umas horas antes do funeral, tive a primeira consulta que deu início à FIV 1 e à noite comecei a administração dos injetáveis.

Em 2015, as tentativas de IIU coincidiram com a altura em que fraturei uma mão, comprei casa e fizemos obras; a FIV iniciou na altura da morte da minha avó; perdi o primeiro filho no dia da morte do pai do meu melhor amigo; realizei uma ecografia que antecedeu uma TEC no meu aniversário do ano passado; perdi o segundo filho no dia seguinte ao aniversário do meu marido; casei na véspera de uma TEC que até era para ser no dia do enlace; fiz uma aspiração uns dias antes do Natal. A infertilidade tem estado presente em todas as frentes.

Há duas noites tive outro sonho relacionado com filhos. Como é habitual, a história era estranha. Eu tinha uma filha bebé, com uns meses suficientes para que ela reconhecesse as pessoas. Curiosamente eu não a conhecia porque, por algum motivo que não sei qual, fui obrigada a estar afastada dela durante esse tempo em que foi crescendo. A minha mãe é que estava responsável por ela (não cheguei a saber o nome da minha menina), assim como umas senhoras que nunca tinha visto na minha vida, numa casa que também me era totalmente incógnita. Quando a vi pela primeira vez estava com medo da sua reação. Disseram-me que a sua fralda estava suja e que podia aproveitar para estabelecer uma conexão com a minha cria. Esteve serena e risonha enquanto eu tentava perceber como trocar-lhe a fralda. Eu não tinha a certeza se estava a proceder corretamente do ponto de vista técnico, mas tranquilizaram-me dizendo que fiz tudo bem. Quando ficou pronta peguei nela e abracei-a com algum receio. Rapidamente senti que ela se colou a mim com toda a força, não me queria largar. Via-se nos olhos dela uma felicidade imensa por estar agarrada a mim. Fui invadida por uma sensação de alívio e esperança de que a partir dali eu poderia ser a sua mãe.
Acordei do sonho, lembrei-me que daqui a uns tempos volto às idas ao hospital dia sim, dia não, rumo ao desconhecido.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

38

Olá, 38! Chegaste aqui para os meus lados com um sabor agridoce. Há 38 anos, fora de Portugal, um casal celebrou a chegada de novo rebento. Não foi um rapaz, para tristeza inicial do pai, foi outra menina. Essa mesma que agora está a escrever isto, teve alguns sonhos ao longo da vida. Uns mais realistas que outros, para ser sincera. A forma como cresceu e o rumo que está a tomar não correspondem a nada do que alguma vez imaginara. Não quer dizer que está desapontada, até agradece que haja imprevisibilidade, embora algumas coisas podiam nunca ter acontecido, como em qualquer outra vida. O sonho máximo não se concretizou e pairam no ar sérias dúvidas de que um dia venha a ser realidade.

Hoje aumenta mais uma unidade do ponto de vista etário. A ver pelo andar da carruagem nos meus 38 anos continuaremos a ter a casa com o mesmo número de moradores. Ao menos que tenhamos saúde e momentos felizes.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Carta aberta à Well's

Dirigida à equipa criativa e a quem deu luz verde à atual campanha da Well’s,

Caríssimos,

Sou um mero ser humano que podia ter sido mãe em junho de 2017, sê-lo mais brevemente em fevereiro de 2018 e até mesmo em julho, também deste ano. Infelizmente não acontecerá... Por tentar acreditar há mais de seis anos no slogan “Um Futuro sem bebés, não tem futuro” tenho canalizado a minha vida numa luta inglória que me levou os filhos que nunca irão conhecer qualquer produto da Well’s, nem sequer os seus pais que tanto os desejavam. Encontro-me numa fase em que me resta somente mais uma hipótese de poder dar sentido à máxima que aparece estampada em diversos meios de comunicação social.

Se para muitos a vossa campanha é um gesto de celebração da família; a oportunidade de ter uns produtos de forma graciosa com/sem intenção de adquiri-los posteriormente; algo totalmente indiferente; uma falta de consideração pelas famílias que tiveram os seus rebentos em anos transatos, como já tive oportunidade de ler; para mim e muitos mais é algo absolutamente profundo.

Enquadro-me nos 20% de candidatas a mamãs que passou por uma perda gestacional até às 20 semanas e até vou mais longe. Estou dentro do intervalo de 1 a 5% de mulheres que abortou (sem vontade própria) três ou mais vezes. Tenho sofrido os chamados abortos recorrentes, sendo o último bem recente. Muitas famílias passaram por perdas ainda mais tardias. Todos os que vivemos a dor de perder filhos ou nunca ter conseguido sequer engravidar, temos uma ferida bem aberta que não vai cicatrizar e a vossa campanha está a causar-lhe uma infeção. Muitos de nós que não conseguimos colocar no mundo futuros criativos na área de marketing ou outro tipo de profissionais, estamos com a vossa frase atravessada na garganta.

Se, por um lado, ansiamos ter um futuro com bebés, por outro temos de saber construir outro tipo de futuro se a vida nos bloquear a porta da parentalidade, porque ele existe. É claro que do ponto de vista demográfico são necessários bebés para garantir a sobrevivência de uma espécie. Todos temos noção que a muito longo prazo a humanidade vai manter a preferência de perpetuar a continuidade da sua reprodução. O slogan que usam coloca aqueles que não podem/não querem ter filhos num nível trófico irrelevante, como que na categoria dos inúteis da sociedade. Tomem pois consciência que uma parte dos beneficiários do conjunto de produtos que estão a oferecer será negligenciada e maltratada pelas suas famílias e terão um não-futuro.

Vi numa publicação na página do Facebook Baby Well’s uma resposta da qual saliento esta parte “…Todavia pela relevância deste tema, considerámos importante estar ao lado das famílias e celebrar os nascimentos.” Traduzo isto como “Todavia, tocando no coração das pessoas com a oferta dos produtos, poderemos aumentar consideravelmente a sua comercialização.” É disto que se trata, falar para as massas que, por enquanto, continua a ser aquela que é bem sucedida do ponto de vista reprodutivo.

Uma vez que valorizam tanto estudos de mercado e estatísticas, espreitem os dados atuais relacionados com a (in)fertilidade. Antevejo, daqui a uns tempos, a inclusão de tratamentos de fertilidade com desconto em cartão Continente nas Clínicas Dr. Well’s.

E os outros? Aqueles que não vão celebrar nascimentos, não são famílias? Obrigada por lembrarem que não representam nada (os que não podem/não querem ter filhos) embora lamentem que há “… mulheres que, por questões de saúde, não possam ser mães.”

Este desabafo não é para manifestar revolta por não ter direito a receber produtos, façam-lhes o que bem entenderem. Estou apenas a refletir sobre a forma infeliz como decidiram promover a iniciativa.

Desejo que a vida não vos pregue partidas de mau gosto.

Cumprimentos,

Da bloqueadora de futuro

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Quando o telefone toca

Recebi a chamada que aguardava da enfermeira para fazer o ponto da situação, perguntar se aceitava fazer nova FIV e tomar conhecimento das orientações para o início da sua preparação. Quis saber se já tinha menstruado, então tratei de relembrar que só com medicação isso acontece. Contei que tinha abortado e feito uma aspiração no dia 21 de dezembro, da qual aguardo o resultado da análise citogenética. Pediu que esperasse nova chamada, porque iria falar com a médica para ver o que deveria ser feito. Passados alguns minutos recebi nova chamada. Como o aborto foi recente, no sentido de dar tempo ao corpo para recuperar, a FIV já não será no próximo mês. Além do mais como ainda não sabemos o conteúdo do relatório da análise do material recolhido na aspiração não se poderá avançar para novo tratamento. Deverei aguardar pela carta com a marcação de consulta de anatomia patológica. Nessa altura entrarei em contacto com a Medicina de Reprodução para vermos como se vai proceder. Não sei se o tempo de espera dessas consultas é demorado pese embora não esteja com uma pressa desmedida para voltar a fazer uma estimulação, possivelmente hiperestimular e aguardar mais uns meses por uma TEC. Não é que a idade esteja a meu favor, pois na próxima semana faço 38 anos, sabe-se lá como anda a qualidade dos ovócitos. A última vez que forcei os ovários a trabalharem foi há dois anos e deu no que deu: uma quantidade astronómica de folículos na corrida, 25 puncionados e 12 embriões aparentemente bons, no entanto continuo de mãos a abanar.

Tenho de pensar que esta é a última oportunidade que me é concedida e agarrar-me a isso para manter viva a esperança de que poderá estar aí a solução para o knock out à infertilidade. Tenho consciência que poderei passar por situações ainda mais complicadas do que aquelas que ocorreram até ao momento, com perdas ainda mais penosas, um desgaste maior deste organismo bípede que executa o que outros lhe ordenam e um coração cada vez mais enfraquecido e frio pela dor acumulada.

Não considero que tenha já um calhau no peito, é nesse sentimento que me agarro para envergar a esperança última que vai concluir a minha luta. Os próximos posts serão os derradeiros episódios que dedicarei à enorme batalha que tenho vindo a travar. Ando a pensar no destino que poderei dar ao blogue se o meu ninho ficar definitivamente vazio. Não queria que ele perecesse como a minha guerra, gostava que apesar de não mostrar o sucesso pessoal transmitisse uma mensagem de esperança para o número cada vez maior de casais que se debate com esta epidemia de frustração. Sou apenas uma molécula neste oceano de relatos pessoais em que tropeçamos na blogosfera. Contudo é graças a estas pequenas gotas que vamos juntando peças e descodificando o que nos vai acontecendo, pois a informação dada por quem nos dá ordens para executar é, na maioria das vezes, telegráfica ou até inexistente. Podemos antecipar cenários como forma de atenuar a dor - embora ela exista sempre por muito que pensamos estar preparados - conhecer o nosso corpo um pouco melhor, partilhar sentimentos, dúvidas e essencialmente ajudar, confortar. Reina o silêncio em torno da infertilidade. Mesmo que se tente sensibilizar mais a sociedade para esta doença como aconteceu no início desta semana num programa da TVI, fica tanto por dizer por limitações de tempo no ar ou espaço editorial que parece que isto não é nada de especial e se resolve sempre. É neste âmbito que os blogues, por exemplo, se podem destacar de diversos meios de comunicação social, por possibilitarem uma escrita livre, sem limite de carateres, em que se pode partilhar detalhadamente que mundo é este da infertilidade.

Como estamos em 2018 não queria concluir este post sem desejar o melhor para quem me lê e para quem está, como eu, a tentar dar o golpe de misericórdia à maldita.

sábado, 30 de dezembro de 2017

Retrospetiva do ano

Nestes anos todos de luta 2017 foi, sem dúvida, aquele que mais me colocou à prova a diversos níveis. Quase todos os meses estiveram associados à causa da infertilidade. Fosse em preparação de transferências, esperas por beta, colheitas de sangue, ecografias, abortos e hemorragias, parece que não aconteceu mais nada. Devo ter chegado perto da casa dos milhares de comprimidos num só ano. Pensei que finalmente no início de 2018 ia poder contar, a quem me é próximo, que a probabilidade de ampliarmos a família era uma realidade possivelmente exequível.

Casei nuns minutos de intervalo, pois a TEC era prioridade, fiquei sem embriões, voltei à estaca zero.

O ano resumiu-se a 6 embriões transferidos, 2 degenerados, 1 TEC negativa, a segunda gravidez que se chegou a julgar ectópica, a terceira gravidez, com um saquinho perfeito, que terminou com uma aspiração.

Hoje, pela primeira vez em muitos dias, não perdi sangue. Há tanto tempo que isso não sucedia, parece que tenho dificuldade em acreditar que esse episódio interminável finalmente chegou ao fim. Nos primeiros dois dias após a aspiração tinha umas perdas ligeiras que pareciam de sangue diluído contudo, na véspera de Natal, acordei com o pijama ensanguentado.

Recuso-me a fazer resoluções para 2018 ou pedir desejos vãos para mim. Às resistentes que lutam e sonham como eu com o dia em que este pesadelo termina, só queria ter o poder de vos dizer o dia e a hora exata em que isso vai acontecer para atenuar a vossa dor. Não vos queria ver a passar por esta provação.

Há uma música cujo título me recordo muitas vezes, "Killing me softly", que traduz aquilo que a infertilidade me tem feito. Esta espécie de masoquismo está a chegar ao fim, seja pela via do sucesso ou pela constatação que este campeonato não vai trazer frutos. Estou cada vez mais próxima de me libertar deste fardo que tenho carregado.

Uns dias após o término do ano virá o meu aniversário e quase de seguida a última FIV. Aguardo sem euforias o ano de 2018.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Acerca da aspiração

Desloquei-me à urgência de obstetrícia de manhã e fui recebida no consultório por dois médicos e uma médica. Quiseram saber o que aconteceu, pelo que sintetizei a situação. Com uma postura algo rude um dos médicos perguntou-me o que me foi dito na última vez que tinha ido àquele serviço. Respondi que ficou combinado ir lá no dia 28 de dezembro para fazer a raspagem, contudo como continuava a libertar coágulos e a hemorragia estava aumentar novamente, comuniquei a situação à equipa de Medicina de Reprodução. A indicação que a Diretora tinha dado era que deveria proceder imediatamente à raspagem, não podendo ficar a aguardar até ao dia 28. Obtive como resposta "Quem decide se faz agora ou não, somos nós". Fizeram-me ecografia através da qual viram que de facto ainda havia conteúdo espalhado em várias zonas, um dos vestígios tinha 15 mm. Concluíram que iria fazer aspiração. Por precaução questionei se o conteúdo ia para análise. Parecia que estavam a estranhar a minha pergunta, então referi que havia a suspeição de que o embrião tivesse uma anomalia genética. O médico com a postura resistente disse "vocês não fizeram estudo de cariótipos?". Respondi afirmativamente, foi das primeiras coisas que se despistou antes de iniciar lá os tratamentos e ambos são normais. Ouvi da parte dele "então os vossos embriões não têm alterações se está tudo bem convosco".

Os meus conhecimentos de biologia ao nível da divisão celular e de genética datam de uma aprendizagem realizada já no século passado mas, se não estou enganada, podem ocorrer erros na meiose, assim como nos processos de replicação, transcrição e tradução do ADN, que geram mutações. Pareceu-me que assumir que cariótipos normais geram sempre embriões sem anomalias terá sido um erro. Como não sou expert, vou tornar a estudar o assunto.

Frisei que era o terceiro aborto e está previsto realizar a última FIV em fevereiro. A equipa médica de PMA salientou que precisa ter esse esclarecimento antes de se fazer novo tratamento. O médico disse então que a amostra iria ser enviada para análise. Como na urgência há dois blocos que naquele momento estavam a ser usados e um tem de estar sempre disponível para grávidas (senti-me reduzida a pó), teria de voltar às 13 horas para se proceder à aspiração, mantendo o jejum. A última refeição que tinha feito fora o jantar do dia anterior.

À hora indicada apresentámo-nos novamente na urgência, entrámos para uma sala onde se encontravam parturientes com os respetivos companheiros, em camas separadas por cortinas. Eu e o meu marido ficámos sentados em dois cadeirões na entrada desse espaço. Mesmo ao meu lado, para lá da cortina, havia uma grávida cujo filho tinha os seus batimentos cardíacos a serem monitorizados. Era um ruído frenético, em que se notava por vezes alguma arritmia como vieram a confirmar. Fora isso, e os momentos em que as enfermeiras falavam de forma mais agitada, não imaginava que uma concentração de mulheres em trabalho de parto se traduzisse numa calma e sossego daquela dimensão. Uma a uma foram administrando a epidural. Enquanto isso nós aguardávamos que um bloco ficasse disponível para deitar para fora o oposto da vida. Estava com as mãos e pés gelados, com fome, a ouvir por um lado, um rádio que tocava baixinho naquela sala, por outro gritos de bebés que tinham acabado de nascer nos blocos. Comentavam que era um dia atípico pela quantidade de nascimentos. Os bebés tinham decidido antecipar a época festiva. O meu Natal tinha acabado umas semanas antes. Para aumentar o sentimento de inutilidade estava ali a testemunhar o milagre da vida enquanto aguardava pela limpeza dos restos que já eram nocivos para o meu equilíbrio. Tranquilizava-me a ideia de haver finalmente uma amostra para analisar para compensar a frustração de não ter conseguido salvar nenhuma naquele maldito dia. Nada me garante que o resultado vá ser conclusivo, pois passou muito tempo desde o aborto.

Numa brecha que as enfermeiras tiveram, lembraram-se que estávamos nos cadeirões. Perguntaram-me quando é que tinha comido pela última vez, pois supunham que tivesse sido há muito tempo. Quando respondi que tinha sido no jantar do dia anterior conversaram entre si para decidir se podiam colocar-me a soro. Acharam que sim e passado talvez mais de meia hora, já depois das 16 horas, apareceram com o material. Começou a caça à veia nas duas mãos. Como referi anteriormente, tinha as mãos frias, que não é habitual em mim. As minhas veias são finas por natureza, com frio pior ainda. Mesmo com garrote e pancadinhas elas não dilatavam. Uma das enfermeiras procurou e não encontrou nada. Outra aventurou-se e começou a introduzir o catéter numa que se revelou timidamente. A veia rebentou logo, já não podia ser usada. A alternativa encontrada foi aquecer-me. Foram buscar um lençol aquecido e um saco de soro quente para colocar por cima da outra mão e do braço. Estive assim durante algum tempo até chegar a hora de nova caça. As veias continuavam escondidas, então veio outra enfermeira tentar a investida. A solução estava numa veia na parte lateral do pulso que, pessoalmente, é mais doloroso para mim. Muito devagarinho ela foi introduzindo o catéter, quase no limiar de rebentar nova veia. Conseguiu completar com sucesso, todos nos sentimos aliviados por se ter colocado o catéter. Fui colocada a soro para atenuar a fome e permaneci no cadeirão até quase às 17 horas. Quando finalmente um bloco ficou disponível fui chamada e encaminhada para outro cadeirão no meio de uma zona de passagem ampla entre várias salas. O anestesista veio ter comigo para fazer as perguntas da praxe. Voltei a falar da importância de os tecidos serem analisados, então tranquilizou-me dizendo que ia reforçar ao médico que ia fazer a aspiração. Fui para o bloco onde me deparei com uma marquesa de ginecologia um pouco mais complexa do que o habitual. As pernas ficaram elevadas nuns apoios azuis almofadados que as envolviam quase até ao joelho. Dava para aquecer um pouco daquele frio da sala. Cada braço ficou em suportes, igualmente envolvidos. Tinha oxímetro num dedo e medidor de tensão no outro braço. Foram colocados os elétrodos para monitorização cardíaca e um lençol quentinho a cobrir peito e braços. Prepararam as luzes e uma das enfermeiras queria trazer o aspirador para o bloco. Comentou que não gostava de o fazer com as pacientes acordadas, então acharam melhor sedar-me. O anestesista avisou-me que me iam adormecer, colocou-me uma máscara à frente e pediu para que inalasse profundamente. À medida que inalava sentia o líquido anestésico a circular no braço e a visão a duplicar. A última coisa que ouvi foi para pensar em coisas boas. Não tive tempo...

Acordei no recobro com um aquecedor a ventilar para o interior do lençol. Senti imediatamente dores, a enfermeira estava ao meu lado e perguntou se estava tudo bem. Queixei-me das dores, ela disse que era normal e perguntei se me podia virar para o lado. Como não havia problema fi-lo e ajudou a aliviar. Tentei dormir mais um pouco, embora não tenha conseguido, aquele bocadinho em que mantive os olhos fechados serviram para que deixasse de sentir dor. A cada 15 minutos era feita monitorização automática da tensão. Inicialmente ignorei, mais tarde comecei a espreitar. Chegou a estar 8/6. De vez em quando perguntavam-me se me sentia bem. A dada altura vi uma enfermeira sair muito rapidamente do bloco de partos com um bebé nos braços para a sala de reanimação. Ele estava sôfrego a chorar. Passado pouco tempo, na cama ao meu lado chegam a recém-mamã e o pai desse bebé. Era o que estava com arritmia. Levaram-no para junto dos pais, então a enfermeira perguntou se eu sentia frio. Disse-lhe que não e ela levou o aquecedor para junto deles. Ao mesmo tempo que esse casal ouvi aqueles dados que os recém-papás querem saber sempre sobre os seus rebentos - o peso, tamanho e perímetro cefálico. A enfermeira trouxe-me em seguida chá com bolachas, o frasco do fármaco tinha terminado e voltou a colocar o soro. Permaneci no recobro mais algum tempo. A bexiga começou a encher muito rapidamente até que já incomodava. Aproveitei a passagem da enfermeira para pedir para ir à casa de banho. Sentei-me durante um pouco na beira da cama e pude voltar para a zona dos cadeirões e grávidas em trabalho de parto onde se encontrava o meu marido, porque ia ter alta. Já eram 19h30, estava a levantar-se para perguntar por mim quando cheguei ao pé dele. Fui à casa de banho, vesti-me, enquanto isso a enfermeira foi saber junto do médico se podia ir embora. Ele veio ter comigo e disse que correu tudo bem, os tecidos foram enviados para análise citogenética e à partida não iria ter grandes perdas por causa da aspiração, nem deveria sentir dores. Fomos com a enfermeira retirar o catéter e finalmente viemos embora.

Em diversas circunstâncias em que estive em ambiente de ambulatório, agora ou no passado, assisti a discussões entre profissionais de saúde dentro da mesma categoria profissional ou com funções diferentes, que não se coíbem de se afirmar hierarquicamente, em tom de voz elevado, sem se preocuparem se os utentes estão ou não a prestar atenção. Faz-me confusão esse tipo de atitude, a meu ver desagradável.

Daqui a três semanas ligo para o piso 3 para relembrar que fiz a aspiração, assim as médicas vão-se mantendo atentas ao computador para ver quando saem os resultados e avisam-me logo que saibam alguma coisa. Parece-me que o meu caso está a chamar a atenção pela complexidade.

Um dos aspetos que me está a causar algum incómodo é que provavelmente vou saber se o embrião era de um menino ou menina. Esse pormenor torna tudo mais próximo e doloroso porque, de certa forma, personifica mais aquele que apelidava de mini-nós. Seria o meu filho ou a minha filha que nunca iremos conhecer e para o/a qual não tivemos tempo nem coragem de perspetivar nada para o seu futuro.

Todos os dias penso que 6 de junho de 2017, 2 de fevereiro de 2018 e 17 de julho de 2018 poderiam ser datas tão significativas para nós... O destino tem-nos fintado com esperanças medíocres. Acena-nos com uma cenourinha para, logo de seguida, começar a fugir com os nossos sonhos. Pensei que fosse ficar mais perturbada por estar no meio de um ambiente oposto ao do piso 3. Mas que foi irónico, isso foi. Vou interpretar este episódio como a última partida de mau gosto que o ano de 2017 me pregou.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Fim de mais um capítulo

Por fim terminado. O ponto final tardou em chegar, agora posso fazer o meu luto em paz.

O dia foi longo. Estou fisicamente cansada e a começar a ter algumas dores, por isso vou ser muito breve. Cheguei a casa há duas horas, fui depois jantar, agora vou repousar.

Não foi feita raspagem, mas sim aspiração e os tecidos removidos foram para análise citogenética. Hoje nasceram vários bebés, o pessoal de enfermagem estava admirado com a quantidade de rebentos que decidiu antecipar o Natal. Tive de esperar por não sei quantos partos em jejum desde o jantar de ontem até perto das 17 horas.

Amanhã desenvolvo o que aconteceu, tenho de descansar.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Vem o inevitável

Ontem continuei a expulsar coágulos e como passaram 4 semanas, liguei no final desta manhã para o piso de Medicina da Reprodução que me aconselhou a ir à urgência de obstetrícia, porque caso fosse necessário fazer análises, lá têm mais facilidade em obter o resultado de forma célere.

Cheguei por volta das 13h30, ainda não tinha almoçado, e como o atendimento estava a demorar fui à máquina de snacks comprar uma saqueta de maçã desidratada e um chocolate. Quando fui chamada para o consultório fiz o resumo do que aconteceu e foi feita a primeira ecografia. A médica observou, mediu, passado algum tempo disse que parecia ter visto algo na parte superior do útero. Pediu-me autorização para chamar um colega para dar uma segunda opinião. Veio então outra médica, fez nova ecografia, referiu que podia estar a menstruar, ao que respondi que normalmente só acontece se tomar medicação. Justificou que as mudanças hormonais podem ter provocado a vinda da menstruação. Concluiu que ainda não saiu tudo. Uma imagem de coágulos é idêntica à de restos de tecido embrionário, mas de facto continuo a ter material no útero.

Quando me estava a vestir perguntaram-me há quanto tempo não comia. Percebi logo a intenção. Voltei para junto das médicas, então calcularam que só às 21h estaria em jejum e podia fazer uma curetagem. Não me perguntaram se estava acompanhada. O meu marido estava a trabalhar e tinha de sair mais cedo para ter uma consulta no Hospital de Gaia. Para me prevenir tinha ido de autocarro em vez de carro, porque não sabia o que iam fazer. Deram também a opção de aguardar mais uma semana para libertar mais alguma coisa e fazer logo a seguir a curetagem. Primeiro sugeriram o dia de Natal, depois o dia de Ano Novo. Viram melhor a previsão de serviço e apontaram o dia 28. Ficou combinado para essa data. Quando saí da urgência desci um piso e fui dar feedback do que aconteceu junto da Medicina da Reprodução. A Diretora disse que dia 28 é demasiado tarde, ainda para mais se continuam a sair coágulos. Ficou estipulado esta quinta-feira voltar à urgência em jejum, dizer que continua a sair muito sangue, que já me sinto fraca e que no piso 3 me aconselharam a fazer imediatamente a raspagem. No meio da experiência que vou viver há pelo menos um ponto positivo a reter. O material vai ser analisado, o que significa que, à partida, vou saber se havia alguma anomalia genética no embrião. É nisto que a médica se quer focar por enquanto. O resultado demora um mês a ficar pronto e a última FIV está prevista para fevereiro.

As festividades são em minha casa e praticamente tudo recai sobre mim. Estava a tentar orientar-me como é que ia ser se tivesse de ir no Natal ou Ano Novo para o hospital.

Este processo de expulsão está a ser mais moroso que a própria gravidez. Todas as transferências tiveram finais diferentes. Tantas coisas ainda podem acontecer em futuras TECs, nem quero pensar muito no assunto...

Ho! Ho! Ho! Vai ser um Natal memorável.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Farta de sangue!

No próximo domingo vai fazer 4 semanas que tive a hemorragia surreal que ditou o fim de mais uma gravidez. Desde aí que tenho perdas e há cerca de duas semanas limitavam-se a um corrimento castanho com libertação esporádica de coágulos. Esta noite, porém, acordei com dores na zona dos rins que se prolongaram durante algumas horas. Quando me levantei regressou a expulsão de vários coágulos e sangue vivo, tal como naquela fatídica tarde de domingo. Ainda não tem a mesma abundância mas o ato de me levantar significa saída de conteúdo. Lamento a descrição mas é a realidade com que estou a dar de caras.

Pensava que na altura do Natal a situação estivesse sanada e pudesse "esquecer" um pouco o assunto. Ao invés de sentir uma felicidade interior por faltar pouco tempo para atingir as 12 semanas de gravidez, de cada vez que vou à casa de banho ou me mexo, recordo-me que mais uma vez perdi um filho.

Participo no fórum demaeparamae e hoje li uma notícia muito triste de uma lutadora que há 9 anos tenta ser mãe. No último tratamento que podia fazer pelo SNS engravidou de gémeos. Está a passar por uma dor inimaginável e neste momento resta uma mãe destroçada e uma pequena bebé a lutar por se manter mais algum tempo a desenvolver no útero. ju-ju-ju não sei se vais ler este post mas desejo, do fundo do coração, que agora tudo corra pelo melhor.

São estes episódios que tiram toda a tranquilidade a positivos e barreiras de 3 meses. Convença-se quem faz estas caminhadas que um positivo tem pouco significado.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Aniversário do blogue

Hoje, dia 6 de dezembro de 2017, continuo a ver as evidências físicas da terceira perda de um filho. A hemorragia está na fase em que parece ter cessado mas as manchas persistem em não dar tréguas. Tenho em mente alguns pontos que irei falar com as médicas na próxima consulta para ver se a última FIV e possíveis transferências que posso fazer no público, ocorrem nas mais perfeitas condições.

Este mês assinala-se o segundo aniversário deste espaço no qual tenho vindo a exprimir ideias mais ou menos desconexas e, principalmente, libertar-me. Nunca imaginei que o alcance das minhas palavras fosse chegar a tantas pessoas, nos mais variados pontos do mundo. No meio dos inúmeros aspetos negativos que a internet tem, a ferramenta dos blogues pode ter impacto positivo e terapêutico tanto para quem lê como para quem neles escreve. Não tive qualquer pretensão de caráter comercial ao criá-lo e optei, desde que o idealizei, por dar relevância apenas a conteúdo escrito, sem qualquer imagem. Ao contrário da ponderação que exijo a mim mesma em tudo o que faço, a materialização do blogue surgiu num impulso, motivado por uma fase em que já não sabia como me libertar da dor que a infertilidade me infligia (e ainda continua). Olhando para trás, vejo que a escrita tem substituído muitas lágrimas que outrora derramava. Não vou mentir e dizer que deixei de chorar. Ainda acontece, embora de forma residual. As minhas almofadas têm agradecido imenso esta mudança. Eram as minhas maiores confidentes, o que me deixava mais abatida pela impessoalidade envolvida. Sei quão difícil é levar esta bofetada da vida e quis que o meu potencial futuro filho conhecesse a sua história com as emoções que senti em cada momento, muito antes de ele sequer existir.

Seja qual for o idioma que fale quem me lê e a forma como veio aqui parar, acredito que para a maioria a infertilidade diz-lhes alguma coisa devido à experiência pessoal ou por alguém que lhes é próximo e esteja a enfrentá-la. Gostava de poder anunciar que finalmente existem técnicas 100% fiáveis e seguras de ultrapassar a infertilidade. Infelizmente a utopia ainda é nota dominante e tenho sérias dúvidas que alguma vez se torne um facto real.

Há dois anos que escrevo aqui e o título do blogue continua, também ele, uma utopia.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Nota de rodapé

Não me esqueci da minha claque :) Vou responder a todas, logo que tenha a disponibilidade habitual. A minha miúda de bigodes longos está doentita e tenho precisado de gerir o tempo de outra forma para ver se ela volta ao seu estado (a)normal.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Ecografia de 6 semanas, mas não para mim

Fui picar ponto, mais uma vez, para fazer aquela que seria a ecografia das primeiras grandes emoções, se a vida fosse bela. Como o sol nasceu para outros lados que não o meu, limitei-me a ver o útero com ar heterogéneo, ainda com restos no cenário que outrora acolhera vida. A hemorragia continua vigorosa, no entanto consigo fazer uma vida minimamente normal se recorrer a apêndices XL em tamanho e capacidade de absorção, caso queira passar mais do que alguns minutos sem fazer visita à casa de banho. O momento ecografia/consulta foi ao estilo do que o HSJ já me habituou. É quase como se estivesse de passagem, com uma conversa rápida, porque há muito serviço à espera lá fora. Sem nos ser perguntado se pretendemos arriscar mais uma estimulação, uma vez que carregamos uma bagagem penosa, a médica tratou logo de delinear o programa das próximas festas. Vou deixar terminar esta hemorragia, menstruar outra vez e aí vai ser apurado se o organismo foi eficiente na limpeza ou permaneceu alguma coisa. Se tudo estiver em ordem reanalisa-se todo o trajeto para procurar alguma ponta solta e parte-se para nova estimulação. Simples, certo? Eu acho assustador este pragmatismo que resulta de não se saber muito bem quem se tem à frente...

Perguntou-me várias vezes se se chegou a ver saquinho. Eu disse que sim, no entanto como ainda era cedo não se via o embrião. Rematou em seguida com uma afirmação que me deixou pensativa. Disse que o valor do beta foi baixinho, sendo preferível que ultrapasse 90. Com aquele resultado reduzido seria provável que o embrião tivesse anomalias nos cromossomas. Questionei se não era estranho acontecer nas três vezes em que engravidei. Ela não quis desenvolver mais o assunto, porque todo o processo tem de ser visto com atenção. Não houve nenhuma amostra que fosse para análise, por isso há menos pistas.

Domingo senti-me verdadeiramente impotente e revoltada. Tentava não me movimentar muito devido à ideia parva de achar que o embrião podia resolver fixar-se outra vez e conseguisse reverter a situação. Ficava aterrada de cada vez que ia à casa de banho e aqueles imensos e numerosos coágulos caiam automaticamente para o fundo da sanita sem ter qualquer hipótese de recolher, sei lá como, tudo o que saía dentro de mim para poder levar para análise. Sentia uma culpa gigantesca por nem sequer ter a capacidade de reservar a miséria que era expulsa do meu corpo. Mais uma vez pairava sobre mim a palavra "falhada", nem para isso servia. Cada centímetro que mexesse no corpo significava que a torneira abria sem piedade, o que reduzia as hipóteses de esclarecer o mistério da anomalia do embrião. Na única vez em que não houve dúvidas da existência de um saco gestacional, perdi a oportunidade de saber mais acerca dele. É irónico como este organismo que me define não tem iniciativa para menstruar mas a abortar é exímio.

Bom, parece que vêm aí novas temporadas desta novela surreal em que se tornou a infertilidade. I'll be back!